segunda-feira, 31 de maio de 2010

A deriva


Você fica com aquela sensação de ter sido deixada a deriva, como aquelas garrafas com mensagem lançadas ao mar, e você tão cheia de mensagens a serem descobertas e lidas, ficou assim cheia de papéis, esquecida, rolando de um lado a outro por uma onda do mar. Você sente tão amargo o gosto na boca, de uma secura, as palavras que vão se perdendo na garganta, sem salvação. Você só quer ir para outro lugar, porque o tempo foi passando e se ficou com aquele susto, aquela respiração prendida e tudo o que você quer é voltar a respirar. E então, tristemente você se dá conta que o tempo não é remédio e o vazio que cresce só aumenta de tamanho porque não se pára de sentir, um abismo e as lembranças latentes. Você pensa e não quer pensar, dorme e não consegue descansar porque vem sonhos. Todos os sonhos não realizados, e então você não quer acordar. Estranho pensar que a pessoa está indo embora e nunca mais pensará em você e nem desconfia que você ficou a míngua, presa nesse espaço-tempo do que se passou, imaginando se vai lembrar de mandar um postal. Esquecimento é um presente cruel. E a tempos já se deu conta de que saiu como perdedor na batalha de matar sentimentos. Você pensa naquelas histórias de poder da mente e fica deformando o rosto de tanto que se concentra num pedido, que ele dê um sinal, apareça, que diga que tudo dói nele também e que coincidência é essa de sentimentos iguais que poderiam ser resolvidos de uma forma melhor, mas o telefone não toca. E isso tudo soa tão melancólico com o tempo tornando algumas coisas em fragmentos, pois você percebe que já não lembra da força do abraço dele, do perfume e da voz, e quando você tenta lembrar da voz é quando o estômago revira e os olhos se enchem de lágrima, porque você mal lembra mas não quer esquecer. E você fica com aquele gesto contigo, segurando o coração porque você sabe que não pode fazer mais nada. Foram tantas coisas não feitas, não vividas, somente sonhos. E há papéis se acumulando por todos os cantos, palavras derramadas buscando um alívio, personificando tristezas e todo aquele amor que insiste em não morrer. E lá fora começa a chover e você chega a conclusão de que parece que o tempo está solidário, tão cinza como você por dentro, a deriva, cansada de tanta tristeza. Você queria ser socorrido, queria poder gritar: eu sou frágil, me cuida. Mas o abraço não vem, tudo vazio, braços vazios, silêncios e a chuva lá fora.

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