terça-feira, 17 de junho de 2008

Ela...



E ela guardou fundo o vazio da carta não respondida, e não sabia definir o impacto do barulho dos cacos do cristal que ouvia se quebrado dentro dela, olhou de relance para o espelho e não reconheceu aqueles olhos secos que a observaram. Olhos indecifráveis pensou, enquanto lhe corria um arrepio pelo corpo todo, teve a certeza de que algo morria ali para sempre. Seus gestos eram mecânicos, começou a selecionar livros, os que ela mais gostava até então, e queimou no quintal um a um, algumas histórias precisavam desaparecer. Tinha entrado num mundo estranho, não reconhecia mais os rostos familiares. Suas mãos se tornaram mais frias ainda, e ela vendo a brancura dos dedos, pintou as unhas de vermelho sangue. O tempo ia passando, a gaveta continuava vazia, a poeira se acumulava pelos móveis, ela rabiscava pedaços de poemas e a pergunta sem resposta. A casa refletia todo o seu desabitar, queria perder a memória, não tinha mais ao que se desprender. Então, ela somente esperava o tempo, o vento, uma tempestade, qualquer coisa que a fizesse voltar a respirar, pois a carta... a carta nunca haveria de chegar.

Um comentário:

Dona-f disse...

é... as pessoas desaprenderam a escrever cartas, agora mandam emails e cartões digitais, é preciso encontrar o belo e o poético nos bites e megabites.